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A EUROPA das NACIONALIDADES Mitos de Origem: Discursos Modernos


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(Apresentação pelo Presidente da Comissão Científica,
Guilherme de Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura)

 Europa é um continente pleno de diferenças e complementaridades. A sua História está por isso cheia de factores contraditórios, mas também de elementos unificadores. As guerras civis europeias marcaram o último século e meio, e a barbárie do século XX levou a que depois de 1945 se tivesse iniciado um caminho difícil de construção de uma Comunidade ou União que pudesse lançar as bases de um projecto durável de paz e democracia. A guerra fria, no entanto, impediu imediatamente a concretização de um projecto pan-europeu, mas criou condições para se iniciar a reconciliação franco-alemã, que deu frutos na reconstrução europeia. Ao contrário do que aconteceu nos anos trinta do século XX, foi possível pôr em prática um projecto orientado para uma democracia supranacional.
Com a queda do muro de Berlim em 1989 abriram-se novos horizontes, mas a crise dos Balkans lembrou aos europeus que as divisões culturais e políticas não tinham desaparecido. Como recordou Jacques Delors a nova União Europeia, confrontada com um rápido alargamento, passou a ter de ser mais modesta, mas mais exigente nos seus objectivos. Três passaram a ter de ser os novos desígnios da União, a fim de concretizar as quatro liberdades (livre circulação de pessoas, mercadorias, capitais e serviços) e de criar a União Económica e Monetária - e esses objectivos são: a paz e a segurança, o desenvolvimento sustentável e a diversidade cultural. Eis o ponto em que nos encontramos: o de construir uma União Europeia com mais cidadania, mais democracia e mais paz.
O Tratado de Lisboa insere-se nessa preocupação. Por outro lado, a Europa poderá hoje compreender melhor a ideia de dupla legitimidade em que tem de se basear: legitimidade dos Estados e legitimidade dos cidadãos. Por isso mesmo a Europa das nacionalidades tem de ser vista a uma nova luz, assente em cinco pontos. Em primeiro lugar, as antigas nações não perderam actualidade, tendo de ser vistas como realidades livres e abertas, e não como instâncias fechadas e proteccionistas. Em segundo lugar, a memória histórica tem de ser encarada como um factor de diversidade cultural e não de expansionismo chauvinista. Em terceiro lugar, os egoísmos nacionais numa sociedade aberta têm de dar lugar à cooperação e ao respeito mútuo. Em quarto lugar, o pluralismo e a liberdade são incompatíveis com o proteccionismo económico ou cultural. Em quinto lugar, o que a União Europeia visa é a construção de uma união de Estados livres e soberanos, que tem de envolver a legitimidade dos Estados e dos cidadãos.
Depois das esperanças da Primavera dos Povos de 1848, prevaleceu a ideia de auto-suficiência e de agressividade nacional. Hoje, uma relativa perda de memória pode fazer esquecer que as nações têm de incentivar a responsabilidade cívica. Daí que em 1989 tenha sido necessário um sobressalto cívico para que uma cultura de paz pudesse ligar a pertença nacional e a solidariedade europeia. Para que os egoísmos nacionais não regressem é indispensável compreender, assim, que não se trata de criar uma nação europeia, mas sim de construir uma legitimidade complexa baseada no pluralismo, num sentido cosmopolita e universalista, capaz de ligar a liberdade, a igualdade, a diferença, a solidariedade, o respeito mútuo e a dignidade da pessoa humana.
Falar da Europa das nacionalidades é, pois, compreender a História, lançando as bases de uma realidade política e institucional capaz de definir os interesses e valores comuns e de defendê-los, preservando as diferenças e fazendo delas um factor de encontro, de paz e de preservação do património cultural comum. A herança e a memória devem assim encontrar-se. A Europa precisa, no fundo, de entender o que a une e a divide, para que possa tornar-se uma União activa de Estados e Povos livres e soberanos!



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(Apresentação pela Coordenadora  da Comissão Executiva,
Professora Doutora Maria Manuel Baptista)

s nações são sempre o resultado de vontades humanas que para si desenham uma vida em comum e se projectam no futuro com a esperança da continuidade temporal e até da eternidade. Mas para que tal perenidade futura, e mesmo a simples existência presente, possa ser garantida é necessário forjar uma identidade própria no terreno dos tempo e espaço sagrados, quer dizer no tempo mítico das origens.
Não é por isso de estranhar que todas as nações e/ou nacionalidades invistam uma boa parte dos seus imaginários na elaboração de mitos de origem, cuja funcionalidade prático-simbólica iguala, frequentemente, o seu carácter estético e literário. Não ignoramos também o quanto estes mitos de origem estão intimamente conectados com a produção simbólica de identidades colectivas, sem as quais os povos e as comunidades jamais sobreviveriam como unidade. Mas, porque uma tal demanda tem estado frequentemente na origem dos mais variados conflitos no espaço europeu (e extra-europeu), alimentando-se do desconhecimento mútuo e da ausência de perspectivas comparatistas e dialogantes, que mais aproximariam as nacionalidades europeias do que as afastariam, pretendemos com este Congresso Internacional constituir um repositório analítico e crítico dos mais importantes mitos de origem das nacionalidades europeias, para além de promover uma discussão problematizante e actual em torno das principais temáticas neles envolvidos: da literatura à comunicação, da história às artes, da antropologia à sociologia, da política à filosofia.
É neste contexto que nos interessa compreender de que modo os discursos da Modernidade (re)investiram, metamorfosearam e/ou reforçaram estas narrativas de origem das nacionalidades europeias e ainda qual(is) o(s) sentido(s) que a pós-modernidade lhes confere na contemporaneidade, ao apropriar-se deles de forma cada vez mais intensa e recorrente.
Porque sabemos o quanto os Mitos de Origem das Nacionalidades Europeias tiveram (e continuam a ter) forte disseminação e impacto no contexto extra-europeu, cruzando-se com os mitos de origem das Nacionalidades não-Europeias, estamos particularmente interessados em conhecer o modo como o Outro não-europeu vive ou viveu os nossos próprios mitos, como em certos casos deles se apropriou adaptando-os às suas próprias circunstâncias ou ainda como a indústria da comunicação contemporânea tem permitido a globalização desses mesmos Mitos de Origem (pensamos por exemplo, entre muitos outros exemplos, no modo como o cinema se tem apropriado dos mitos mais antigos da Europa, devolvendo-no-los em versão hollywoodesca).
Finalmente, e na escala inversa, estamos particularmente interessados no registo, conhecimento e compreensão do riquíssimo acervo mitológico de espaços geográficos insulares onde o imaginário das origens adquire configurações muito particulares, de rara beleza e profundidade.
Esta Conferência Internacional, realizada sob o alto patrocínio do Presidente da Comissão Europeia, tem assim, como objectivo primordial, contribuir para o vasto fundo de reflexão acerca do futuro da Europa unida, precisamente porque diversa e múltipla nos seus Mitos de Origem, relacionados com as diversas nacionalidades que as constituem. Investigadores e peritos nacionais e internacionais, reconhecidos nos campos das artes e das ciências humanas e sociais, contribuirão para o aprofundamento do debate em torno do tema proposto e das linhas fundamentais que configuram a eterna demanda identitária, entre a legitimação narrativa e as várias metamorfoses dos mitos de origem. O Congresso Internacional, cuja Comissão Científica é presidida pelo Dr. Guilherme de Oliveira Martins, a ter lugar na Universidade de Aveiro, Portugal, entre os dias 9, 10 e 11 de Maio de 2011, é uma organização conjunta do Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro (CLC), do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL) e da Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos (CompaRes).
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